quarta-feira, 5 de março de 2008

UM POEMA PARA O "DIA INTERNACIONAL DA MULHER"

MULHER
De: Celso Galvão
(Homenagem ao dia Internacional da Mulher)

Mulher...um doce mistério, uma canção
Como pode existir assim um ser tão belo
Que ao mesmo tempo é brisa e furacão

Seu olhar, seu toque, seu jeito de andar
Pura insensatez lhe desejar
Seu sim é um não, seu não é um talvez.
Amar-lhe é uma louca lucidez

Mulher...um delírio
Uma rosa no cio
Um choro de mãe
Um canto de sereia que entorpece
E incendeia o coração de Adão
Uma costela que falta no coração

Mulher...um terreno minado, um porto, um cais
Cheio de atalhos e armadilhas fatais
Pureza e ousadia
Luxúria e fantasia

Ah! Mulher... como posso viver sem lhe sonhar?
E lhe sonhando sem assim sofrer?
E mesmo sofrendo não conseguir lhe entender?
Porque nem mesmo lhe entendendo
Mil vezes queria assim viver...

Por que um Adão sem Eva
É um mar sem água
Um corpo sem sombra
Uma voz sem palavra
Um tudo sem nada

Mulher...que traz no ventre a vida
Musa, deusa, amante, demônio e querubim...
Como pôde você ter saído de mim?

terça-feira, 4 de março de 2008

MUNDO FEMININO EM 2031

MUNDO FEMININO EM 2031

Conversa entre pai e filho, por volta do ano de 2031, sobre como as mulheres dominaram o mundo.-
Foi assim que tudo aconteceu, meu filho... Elas planejaram o negócio discretamente, para que não notássemos. Primeiro elas pediram igualdade entre os sexos. Os homens, bobos, nem deram muita bola para isso na ocasião. Parecia brincadeira. Pouco a pouco, elas conquistaram cargos estratégicos: Diretoras de Orçamento, Empresárias, Chefes de Gabinete, Gerentes disso ou daquilo.- E aí, papai?- Ah, os homens foram muito ingênuos. Enquanto elas conversavam ao telefone durante horas a fio, eles pensavam que o assunto fosse telenovela. Triste engano. De fato, era a rebelião se expandindo nos inocentes intervalos comerciais. "Oi querida!", por exemplo, era a senha que identificava as líderes. "Celulite", eram as células que formavam a organização. Quando queriam se referir aos maridos, diziam "O regime".- E vocês? Não perceberam nada?- Ficávamos jogando futebol no clube, despreocupados. E o que é pior: continuávamos a ajudá-las quando pediam. Carregar malas no aeroporto, consertar torneiras, abrir potes de azeitona, ceder a vez nos naufrágios. Essas coisas de homem.- Aí, veio o golpe mundial ?!?- Sim, o golpe. O estopim foi o episódio Hillary-Mônica. Uma farsa. Tudo armado para desmoralizar o homem mais poderoso do mundo. Pegaram-no pelo ponto fraco, coitado. Já lhe contei, né? A esposa e a amante, que na TV posavam de rivais eram, no fundo, cúmplices de uma trama diabólica. Pobre Presidente...- Como era mesmo o nome dele? William, acho. Tinha um apelido, mas esqueci... Desculpe, filho, já faz tanto tempo...- Tudo bem, papai. Não tem importância. Continue...- Naquela manhã a Casa Branca apareceu pintada de cor-de-rosa. Era o sinal que as mulheres do mundo inteiro aguardavam. A rebelião tinha sido vitoriosa! Então elas assumiram o poder em todo o planeta. Aquela torre do relógio em Londres chamava-se Big-Ben, e não Big-Betty, como agora... Só os homens disputavam a Copa do Mundo, sabia? Dia de desfile de moda não era feriado. Essa Secretária Geral da ONU era uma simples cantora. Depois trocou o nome, de Madonna para Mandona...- Pai, conta mais...- Bem filho... O resto você já sabe. Instituíram o Robô "Troca-Pneu" como equipamento obrigatório de todos os carros... A Lei do Já-Pra-Casa, proibindo os homens de tomar cerveja depois do trabalho... E, é claro, a famigerada semana da TPM, uma vez por mês...- TPM ???- Sim, TPM... A Temporada Provável de Mísseis... É quando elas ficam irritadíssimas e o mundo corre perigo de confronto nuclear...- Sinto um frio na barriga só de pensar, pai...- Sssshhh! Escutei barulho de carro chegando. Disfarça e continua picando essas batatas...

Uma excelente crônica de Luís Fernando Veríssimo.

segunda-feira, 3 de março de 2008

TELAS DO ARTISTA PLÁSTICO ANTONIO GALVÃO NETTO








"HABEAS PINHO"


HABEAS PINHO
Em 1955, em Campina Grande,na Paraíba, um grupo de boêmios fazia serenata numamadrugada do mês de junho, quando chegou a polícia e apreendeu o violão.Decepcionado, o grupo recorreu aos serviços do advogado Ronaldo Cunha Lima,então recentemente saído da Faculdade e que também apreciava uma boa seresta.Ele peticionou em Juízo, para que fosse liberado o violão.Aquele pedido ficou conhecido como "Habeas Pinho"e enfeita as paredes de escritóriosde muitos advogados e bares de praias no Nordeste. Mais tarde, Ronaldo Cunha Lima foi eleito Deputado Estadual,Prefeito de Campina Grande, Senador da República, Governador do Estado e Deputado Federal.Eis a famosa petição:

Senhor Juiz.
Roberto Pessoa de Sousa

O instrumento do "crime" que se arrola
Nesse processo de contravenção
Não é faca, revolver ou pistola,
Simplesmente, Doutor, é um violão.

Um violão, doutor, que em verdade
Não feriu nem matou um cidadão
Feriu, sim, mas a sensibilidade
De quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,
Instrumento de amor e de saudade
O crime a ele nunca se mistura
Entre ambos inexiste afinidade.

O violão é próprio dos cantores
Dos menestréis de alma enternecida
Que cantam mágoas que povoam a vida
E sufocam as suas próprias dores.

O violão é música e é canção
É sentimento, é vida, é alegria
É pureza e é néctar que extasia
É adorno espiritual do coração.

Seu viver, como o nosso, é transitório.
Mas seu destino, não, se perpetua.
Ele nasceu para cantar na rua
E não para ser arquivo de Cartório.

Ele, Doutor, que suave lenitivo
Para a alma da noite em solidão,
Não se adapta, jamais, em um arquivo
Sem gemer sua prima e seu bordão

Mande entregá-lo, pelo amor da noite
Que se sente vazia em suas horas,
Para que volte a sentir o terno acoite
De suas cordas finas e sonoras.

Liberte o violão, Doutor Juiz,
Em nome da Justiça e do Direito.
É crime, porventura, o infeliz
Cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, afinal, será pecado,
Será delito de tão vis horrores,
Perambular na rua um desgraçado
Derramando nas praças suas dores?

Mande, pois, libertá-lo da agonia
(a consciência assim nos insinua)
Não sufoque o cantar que vem da rua,
Que vem da noite para saudar o dia.

É o apelo que aqui lhe dirigimos,
Na certeza do seu acolhimento
Juntada desta aos autos nós pedimos
E pedimos, enfim, deferimento.

O juiz Arthur Moura sem perder o ponto deu a sentença no mesmo tom:

"Para que eu não carregue
Muito remorso no coração,
Determino que seja entregue,
Ao seu dono, o malfadado violão!"

O juiz Roberto Pessoa de Sousa, por sua vez,
Despachou utilizando a mesma linguagem

Do poeta Ronaldo Cunha LIma: o verso popular.

Recebo a petição escrita em verso
E, despachando-a sem autuação,
Verbero o ato vil, rude e perverso,
Que prende, no Cartório, um violão.

Emudecer a prima e o bordão,
Nos confins de um arquivo, em sombra imerso,
É desumana e vil destruição
De tudo que há de belo no universo.

Que seja Sol, ainda que a desoras,
E volte á rua, em vida transviada,
Num esbanjar de lágrimas sonoras.

Se grato for, acaso ao que lhe fiz,
Noite de luz, plena madrugada,
Venha tocar á porta do Juiz.